Pátu: Pó da memória e do conhecimento Tukano

Resumo

Pátu é uma substância resultante do processamento das folhas de coca. As folhas são tostadas no forno, maceradas com pilão, misturadas com cinza das folhas de embaúba e pulverizadas em um tubo de madeira longo. O resultado disso é consumido no trabalho, no tardar do dia, ao socializar conhecimentos com filhos, irmãos maiores e menores. Nas grandes festas rituais, os Ye´pamasa compartilham com seus genros e cunhados como forma de atualização da aliança cosmopolítica. O pátu foi usado e consumido por Umukoho Ñeku (Avô do Universo) para intuir e pensar a construção do a’tipati (este mundo/universo) e a criação dos primeiros seres existentes deste mundo e dos primeiros humanos. Estes apareceram e saíram da cuia de pátu (cuia de ipadu), agenciados para este fim por Umukoho Ñeku. Hoje em dia, o pátu, ao ser consumido, ativa conhecimentos tradicionais nas narrativas míticas e no conjunto de agenciamentos e cantos/danças que se ouve e escuta do especialista ye´pamahsʉ (tukano). Para isso, o pátu precisa passar pelo basero (agenciamento) do kumu (benzedor), sendo conhecido “metafisicamente”, como cuia de especialização. Potencializado pelo kumu, existem katiri waharo (cuia de vida), ukũsetiri waharo (cuia de arte de oratória), tuoñesetiri waharo (cuia de pensamento), kumũãri waharo (cuia de agenciador), yaíari waharo (cuia de xamã), bayari waharo (cuia de mestre de cantos e dança). Cada uma delas possui e oferece o grau de especialidade de conhecimentos tradicionais. Esse agenciamento complementa a pessoa em formação nos conhecimentos tradicionais dos Ye´pamasa, pois cada um já recebe no ato do heripora basero (nominação ou onomástica) no pós-parto, uma especialidade agenciada pelo kumu. E as pessoas que consomem pátu sentem-se fortificadas, física, mental e espiritualmente. O pátu é entendido como tʉoñakawese, pó da memória dos ye´pamasʉ. Portanto é o elemento de uso dos especialistas yepamasʉ para a produção, reprodução e construção de conhecimentos tradicionais. Essa substância é concebida como fundamento central do ritual de grandes festas e na vida cotidiana como um alimento que está “adoçando” não apenas a parte física, mas também a vida social e espiritual dos especialistas.
Pátu is a substance resulting from the processing of coca leaves. The leaves are roasted in the oven, macerated with a pestle, mixed with ash from the embaúba leaves and pulverized into a long wooden tube. As a result, he spends himself at work, at the end of the day, sharing knowledge with his children, older and younger siblings. In large ritual parties they share with their sons-in-law and brothers-in-law as a way of updating the cosmopolitical alliance. Pátu was used and consumed by Ʉmʉkoho Ñekʉ (Grandfather of the Universe) to intuit and think about the construction of the a’tipati (this world/universe) and the creation of the first existing beings of this world and the first humans. These appeared and left the gourd of pátu (gourd of ipadú), managed for this purpose by Ʉmʉkoho Ñekʉ. Nowadays, the pátu, when consumed, activates traditional knowledge in the mythical narratives and in the set of agency and songs/dances that are heard and heard by the specialist ye'pamahsʉ (tukano). For this, the pátu needs to go through the basero (agency) of the kumu (benefactor), being known “metaphysically”, as specialization bowls. Empowered by kumu, there are katiri waharo (life gourd), ukũsetiri waharo (oratory gourd), tʉoñesetiri waharo (thought gourd), kumũãri waharo (agent gourd), yaíari waharo (shaman gourd), bayari waharo ( singing and dancing master's gourd). Each one of them possesses and offers the degree of specialization of traditional knowledge. This agency complements the person in training in the traditional Ye´pamahsã knowledge, as each one already receives, in the act of the heripora bahsero (nomination or onomastic) in the postpartum, a specialty brokered by the kumu. And people who consume pátu feel fortified, physically, mentally and spiritually. Pátu is understood as tʉoñakawese, dust from the memory of the ye´pamahsʉ. Therefore, it is the element used by ye´pamahsʉ specialists for the production, reproduction and construction of traditional knowledge. This substance is conceived as the central foundation of the ritual of large parties and in everyday life as a food that is “sweetening” not only the physical part, but also the social and spiritual life of specialists.

Descrição

Citação

AZEVEDO, Dagoberto Lima. Pátu: pó da memória e do conhecimento Tukano. 2022. 173 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus (AM), 2022.

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